Golpes com vagas falsas no Brasil combinam WhatsApp, LinkedIn, falsas entrevistas e o uso indevido de marcas conhecidas para roubar dados ou dinheiro. O que mostram as pesquisas, a polícia e os alertas do setor, e o que uma empresa pode fazer.


Escrito por Guido Schenone


Como funcionam os golpes com falsos recrutadores no Brasil?

Os casos documentados seguem um roteiro: uma oferta atraente, um contato por WhatsApp, Telegram, LinkedIn ou e-mail e, em seguida, um pedido de dados, dinheiro ou credenciais. O "golpe da tarefa" é o mais disseminado: a vítima é recrutada para tarefas simples, como curtir publicações ou avaliar produtos, recebe um primeiro pagamento de R$ 5 a R$ 20 para ganhar confiança e depois é levada a fazer depósitos cada vez maiores. Segundo a Redbelt Security, o número de grupos ativos desse golpe no Brasil passou de 73 para 128 em menos de um ano, alta de 75%, com uso indevido dos nomes de Shopee, Shein, Mercado Livre e Magalu, sem envolvimento das empresas. Em junho de 2026, a ESET Brasil alertou para uma falsa vaga na L'Oréal usada para roubar credenciais de e-mail. E, no Recife, um grupo marcava entrevistas presenciais em um coworking, pedia que o candidato desligasse o celular e tirasse uma selfie, depois usada para contratar empréstimos em nome da vítima.


Que números existem e o que não se pode afirmar?

Há indicadores, mas é preciso cuidado. Uma pesquisa do LinkedIn divulgada pela Exame em maio de 2026 mostrou que 70% dos recrutadores brasileiros dizem que os golpes dificultam criar confiança com os candidatos e que 83% dos candidatos verificam se uma vaga é legítima; disseram já ter sido vítimas 18% dos entrevistados da geração Z e 23% da geração X. O Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2026 registrou mais de 2,2 milhões de casos de estelionato em 2025, alta de 429,8% desde 2018, mas esse número reúne todo tipo de fraude, não apenas os golpes de emprego. Não encontramos uma estatística oficial brasileira específica sobre fraudes em processos seletivos. Os dados permitem afirmar que o problema é relevante e crescente, não estimar quantos brasileiros foram lesados.


O que diz a lei e que casos chegaram à polícia?

O estelionato (art. 171 do Código Penal) pune com reclusão de um a cinco anos quem obtém vantagem ilícita induzindo alguém a erro. Quando a fraude é cometida com informações fornecidas pela vítima ou por terceiro induzido a erro "por meio de redes sociais, contatos telefônicos ou envio de correio eletrônico fraudulento", a pena é de quatro a oito anos (§ 2º-A, fraude eletrônica). Em setembro de 2026, a Polícia Civil de Pernambuco prendeu dois suspeitos do golpe da falsa entrevista no Recife, com prejuízo de mais de R$ 500 mil em quatro golpes. Em outubro de 2026, a Polícia Civil da Bahia prendeu em Feira de Santana um suspeito de aplicar golpe semelhante, com falsa vaga em uma "farmacêutica" e uso dos dados das vítimas para empréstimos e financiamentos. Os casos estão em investigação e não há condenação.


Como o candidato pode se proteger e o que a empresa pode fazer?

O alerta mais direto veio da Febraban em maio de 2026: "Não efetue qualquer tipo de pagamento: taxa de inscrição, exames ou cursos pré-contratação". O blog do Itaú, ao tratar de vagas falsas em nome do banco, resumiu: "empresas sérias não cobram por etapas de contratação". Thales Santos, especialista em segurança da informação da ESET Brasil, observou sobre o caso da falsa vaga na L'Oréal que um pedido de credenciais "é um sinal claro de tentativa de fraude e deve servir como alerta imediato". As orientações se repetem: conferir se o e-mail do recrutador é do domínio oficial da empresa, confirmar a vaga no site de carreiras, desconfiar de pedidos para migrar para o WhatsApp e nunca pagar para participar de um processo seletivo. No caso das agências de trabalho temporário, a Lei nº 6.019/1974 proíbe cobrar do trabalhador qualquer valor, mesmo a título de mediação (art. 18).


O que acontece com os dados pessoais do candidato?

Quando um falso recrutador reúne currículo, documentos, selfie e dados bancários, o candidato perde o controle de informações que permitem abrir contas e contratar crédito em seu nome — e a selfie, como dado biométrico, é dado pessoal sensível na LGPD (art. 5º, II). Quando quem coleta é uma empresa real, a LGPD exige finalidade definida, limitação ao necessário e transparência sobre o tratamento (arts. 6º e 9º). Um sinal de legitimidade é o recrutador explicar desde o início quais dados pede, para quê e por quanto tempo os guardará. "Um processo seletivo sério não pede dinheiro nem dados a mais: informa o que verifica, para quê e com que base, e isso também é um sinal de legitimidade para o candidato", afirma Guido Schenone, Comercial & Growth Manager da Validato. Vale que cada empresa publique em seu site como contata candidatos e o que nunca solicitará.


Referências

  1. CNN Brasil, 02/12/2025, levantamento da Redbelt sobre o golpe da tarefa. https://www.cnnbrasil.com.br/nacional/brasil/levantamento-aponta-boom-do-golpe-da-tarefa-no-brasil/
  2. TI Inside, 11/06/2026, falsa vaga na L'Oréal (ESET Brasil, T. Santos). https://tiinside.com.br/11/06/2026/criminosos-usam-falsa-vaga-de-trabalho-na-loreal-para-roubar-credenciais-de-e-mail/
  3. Exame, 07/05/2026, pesquisa do LinkedIn sobre fraudes no recrutamento. https://exame.com/carreira/vagas-fantasmas-fraudes-durante-o-recrutamento-disparam-no-brasil-aponta-linkedin/
  4. Brasil 61, 28/07/2026, Anuário Brasileiro de Segurança Pública. https://brasil61.com/n/anuario-de-seguranca-publica-brasil-registrou-mais-de-2-2-milhoes-de-casos-de-estelionato-em-2025-bras2616801
  5. Diario de Pernambuco, 14/09/2026, golpe da falsa entrevista no Recife. https://www.diariodepernambuco.com.br/vida-urbana/2026/09/11723880-policia-prende-suspeito-de-aplicar-golpe-da-falsa-entrevista-de-emprego-no-recife.html
  6. Polícia Civil da Bahia, 27/10/2026, prisão em Feira de Santana. https://www.ba.gov.br/policiacivil/noticias/2026-10/26115/policia-civil-prende-suspeito-de-aplicar-golpe-da-falsa-entrevista-de
  7. Diario de Pernambuco, 12/05/2026, alerta da Febraban. https://www.diariodepernambuco.com.br/economia/2026/05/11714102-febraban-alerta-para-golpe-do-falso-emprego.html
  8. Itaú, blog, 05/05/2026, vagas falsas no LinkedIn. https://blog.itau.com.br/efake/golpe-vagas-itau-falsas-no-linkedin
  9. Código Penal, art. 171 (redação da Lei nº 15.397/2026). https://legis.senado.leg.br/norma/43212112/publicacao/43212927
  10. Lei nº 6.019/1974, art. 18; Lei nº 13.709/2018 (LGPD), arts. 5º, 6º e 9º. Planalto / Senado.